Estudos culturais: outro nível de precisão?

Meti-me há pouco a ler e a falar de estudos culturais, entre outras coisas devido à necesidade de defender ou promover o português na Noruega e sobretudo na universidade de Oslo, mas deparei-me com uma tradição académica (ou forma de divulgação) que me tem por vezes posto os cabelos em pé.

Av Diana Sousa Marques Santos
Publisert 13. aug. 2014

Será que foi azar e o guru que eu me pus a ler não é sério (Richard D. Lewis) ou, ao contrário do que parecem, os livros são simplesmente para a cultura anglo-saxónica e por isso o continuar a reforçar a ignorância e as atitudes dos ingleses e dos americanos é natural?

Mas o anglo-centrismo é tal, que me dá vontade realmente de pôr os livros no caixote de lixo. Mas como isso não tem qualquer influência (e aliás tenho de os devolver à biblioteca) decidi inicialmente copiar aqui algumas das "pérolas" associadas a Portugal e ao Brasil.

Mas não, propagar esse tipo de desinformação, citando precisamente, mesmo com uma resposta irónica, é ter-lhe demasiado respeito. Por isso resumo simplesmente as mais escandalosas: as boas características dos portugueses... eram devidas à sua tradição de negociar com os ingleses! E que o Brasil ser português foi absolutamente por acaso... e que nem sequer foi apreciado. E que os brasileiros são diferentes conforme a zona climática: os do litoral são animados, os índios das montanhas (não sei bem a que é que ele se refere) são mais tristonhos e sérios.

Será simplesmente este autor que não tem tempo para se informar sobre a história e cultura das regiões sobre que fala, ou a maior parte dos livros de divulgação -- estou agora a pensar no fenómeno Bill Bryson -- contém um chorrilho de disparates que não é costume ir confirmar? Deixei de ler o dito BB quando deparo com a seguinte menção gratuita ao Vasco da Gama, "um homem muito mau". E sobre as viagens ou o império português, isso chega. O único de que os americanos conhecem o nome -- era muito mau. Gostava de saber onde ou quem propalou essa informação, e sobretudo como é que esses juízos morais não se refletem (que eu saiba) em nenhum outro navegador, sobretudo não o Colombo, que foi herói simplesmente por ter descoberto a América! (E a América é o centro do mundo, por isso um incompetente que não percebia nada de geografia ou navegação tem de ser promovido a herói -- ou seria aceitável dizer que a América fo encontrada por erro, e que teria sido muito melhor se não o tivesse sido?) [Notem, não tenho qq conhecimento pessoal dos dois navegadores e não ponho as mãos no fogo sobre as suas qualidades morais, o que me indigna é a forma diferente como o BB fala sobre o Vasco da Gama e o Cristóvão Colombo.]

Por um lado, é interessante e enriquecedor ler livros que contam a História de outra maneira, que falam de outras culturas, que mostram outras visões do mundo. É importante para não sernos tacanhos e bairristas. Mas, por outro lado, que desilusão -- e consequente desconfiança de que tudo o resto também não é credível -- quando se encontra este tipo de informações ou comentários!

Claro, há questões de grau, e também há questões de malvadez ou mesquinhez. É total falta de conhecimento do Richard D. Lewis, mas não foi por mal. A ideia que dá dos portugueses e dos brasileiros até é boa (pelo menos na ótica dele).  Já a menção e apoucamento dos portugueses comparado com os ingleses quando Bill Bryson escreve (ou dá a entender que escreve) uma história do mundo, por muito pessoal que seja, é certamente uma malvadez, uma falta de ética, uma prova de desonestidade e preconceito.

Porque será que não há revisores ou críticos que saltem sobre estes "deslizes" dos best-sellers? Quantos portugueses ou mesmo lusófonos não se sentiram tristes, desagradados ou pelo menos desconfiados com aquela feia e gratuita menção ao Vasco da Gama? E é por isso que acabo este blogue com uma obra de uma historiadora francesa sobre o mesmo. Geneviève Bouchon. Vasco da Gama. Librairie Anthème Failard, 1997, traduzida para português e editada em 4 volumes pela Terramar para o Público, 1998. Mesmo que os franceses sejam conhecidos como galo-cêntricos (mas todas as culturas o têm de ser por definição), quando fazem História tentam fazê-la bem, e apresentar aquilo que se sabe ou que eles tentam encontrar.

Emneord: cultura, fiabilidade, história
Publisert 13. aug. 2014 14:24 - Sist endret 15. juli 2015 10:28